quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Entrevista Especial no jornal Correio de Sergipe sobre o novo livro "A Crise Constitucional no Mundo"

 

Entrevista especial: José Anselmo de Oliveira lançará livro sobre crises constitucionais

01/08/2026 às 06:10

 

O magistrado, escritor e professor José Anselmo de Oliveira vai lançar, no dia 6 de agosto em Aracaju, a obra “A Crise Constitucional no Mundo: Desafios, Implicações e Caminhos para a Redefinição do Estado de Direito”. Em 12 capítulos acessíveis e profundos, o autor debate o avanço do autoritarismo, os efeitos da desinformação nas redes sociais e as ameaças aos direitos humanos. Além de apontar os problemas, a obra traz uma mensagem de resiliência: compara sistemas de governo, apresenta estudos de caso de superação de crises e defende que a participação ativa da sociedade é a chave para reconstruir o Estado de Direito. O lançamento será no Lobby Bar do Quality Hotel Aracaju. Formado em Direito pela Universidade Federal de Sergipe e mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Anselmo de oliveira nasceu em Capela. Sua trajetória perpassa o jornalismo e a docência, atua como Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe desde 1989. É membro de respeitadas instituições, como a Academia Sergipana de Letras, a Academia Sergipana de Letras Jurídicas e a Academia Brasileira Rotária de Letras, além de integrar associações internacionais de Justiça Constitucional e Direito Médico. Na entrevista a seguir, Anselmo de Oliveira fala sobre a escolha do tema, os desafios para a produção da obra e faz uma rápida análise sobre alguns temas abordados tais como retrocesso democrático, fakes news e mobilização social. Confira:

 

 

 

Jornal Correio de Sergipe/Portal AJN1- O que motivou o senhor a escrever este livro?

Anselmo Oliveira – Nos últimos 20 anos, o mundo tem sofrido mudanças radicais em todos os continentes no que diz respeito à Constituição e, mais de perto, ao formato dos Estados nacionais. As grandes conquistas civilizatórias do pós-guerra — como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, a reafirmação do Estado Democrático de Direito e a criação de tribunais internacionais, como a Corte Internacional de Justiça, o Tribunal Penal Internacional e as Cortes Regionais de Direitos Humanos (Corte Europeia dos Direitos Humanos e Corte Interamericana de Direitos Humanos) — foram sendo minadas por ideologias extremadas, que também se opõem ao multilateralismo. Esses novos movimentos buscaram enfraquecer a força das Constituições e de todas as Declarações de Direitos que, ao longo do tempo, vinham se consolidando como avanços da democracia e dos direitos humanos fundamentais. Esse é o combustível da crise constitucional que estamos vivendo, e foi essa preocupação que me levou a escrever o livro.

 

CS/AJN1 – O foco central desta obra é justamente a compreensão das fragilidades e dos desafios enfrentados pelas democracias contemporâneas. Olhando para o cenário atual, quais são as maiores “fraturas expostas” que o senhor identifica no nosso sistema democrático e que antes passavam despercebidas?

Anselmo Oliveira  -A primeira grande “fratura exposta” é a gritante desigualdade econômica entre países e pessoas, e o movimento em nome do liberalismo que aumenta cada vez mais a distância entre os países periféricos e os países ricos; a segunda é a xenofobia e o racismo explícitos, que estão disseminando o ódio e a violência; a terceira é a falsa ideia de luta pela liberdade como meio para eliminar o Estado democrático, usando especialmente as redes sociais; e a quarta, e mais preocupante, é o movimento que busca destruir o Estado Democrático de Direito usando os meios de acesso ao poder garantidos pela própria democracia, mas para desintegrar as instituições democráticas.

 

CS/AJN1Como magistrado, o senhor lida diariamente com a aplicação prática das leis. De que forma a sua experiência no Poder Judiciário ajudou a moldar esse diagnóstico sobre a fragilidade das nossas instituições?

Anselmo Oliveira  – A minha trajetória acadêmica como professor de Direito, há quase quatro décadas — especialmente na área do direito constitucional, em que sou mestre pela Universidade Federal do Ceará —, somada ao que tenho estudado e pesquisado ao longo desses anos, contribuiu bastante. Isso, alinhado à prática judicial nesses quase 37 anos de magistratura, me permite acompanhar os movimentos que buscam afetar a credibilidade do Judiciário — não como crítica construtiva e justa, mas como forma de tirar do Poder Judiciário a sua vocação de cumprir a Constituição.

 

CS/AJN1 – Muitas vezes, quando pensamos em ‘desafios da democracia’, focamos nas grandes capitais federais ou na política internacional. Como essas fragilidades contemporâneas descritas no livro se manifestam e afetam diretamente o equilíbrio institucional aqui em Aracaju?

Anselmo Oliveira  – Eu diria que essas fragilidades afetam diretamente a todos nós, cidadãos, e também a todos os poderes constituídos. A força da democracia começa na comunidade, no bairro, nas cidades pequenas, que juntos formam o Estado, e os Estados formam a República Federativa, no caso do Brasil. Assim, não há como dissociar o que está ocorrendo no mundo inteiro do que acontece nas cidades, como Aracaju. O uso do medo e a deliberada ideia de que só um lado tem a verdade são a raiz do autoritarismo, que é o oposto de uma sociedade democrática.

 

CS/AJN1 – O livro toca em duas feridas profundas do nosso tempo: a corrupção e a ascensão do autoritarismo. Na sua visão de magistrado, de que forma a corrupção sistêmica funciona como combustível para que discursos autoritários ganhem força e passem a ser vistos, na web, como “soluções legítimas” na mente da população?

Anselmo Oliveira  – A corrupção sempre foi um câncer na sociedade, desde que o mundo existe. A prática da corrupção foi se aperfeiçoando ao longo dos séculos e hoje tem suas raízes fincadas no Estado e nas atividades privadas. Mas a corrupção nasce dos pequenos atos praticados e tolerados pela sociedade — é uma questão moral, acima de tudo. A gravidade é a mesma, tanto para o ato de corromper um simples servidor público para conseguir furar a fila quanto para o grande capitalista que compra votos no Congresso em seu benefício, ou para quem facilita vencer uma licitação do Executivo ou mesmo uma sentença no Judiciário. E são, sim, combustível para os discursos autoritários — que não se enganem, pois estes também praticam a corrupção.

 

CS/AJN1 – As redes sociais transformaram a comunicação, mas o senhor destaca o impacto polarizador delas e da desinformação nas liberdades civis. Como garantir a liberdade de expressão nas plataformas digitais sem permitir que a mentira orquestrada destrua os próprios direitos humanos e a confiança nas instituições democráticas?

Anselmo Oliveira  – A comunicação sempre foi utilizada tanto para o bem quanto para o mal. Nos grandes conflitos mundiais, a propaganda — uma das formas de comunicação — foi bastante utilizada para vender ilusões e falsas ideias. Lembremos da propaganda nazista, que tinha à frente Joseph Goebbels, na Alemanha, e que usava táticas de comunicação e controle psicológico para eliminar opositores, promover o ultranacionalismo e arregimentar a população. E nós sabemos onde tudo isso terminou. As redes sociais e as plataformas digitais vêm sendo utilizadas, muitas vezes, com esses mesmos interesses, somando a facilidade tecnológica da inteligência artificial à criação de postagens mentirosas ou com desinformação. O objetivo tem sido muito claro: destruir os conceitos de direitos humanos, disseminar ódio e abalar a confiança nas instituições democráticas. A liberdade de expressão é, sem dúvida, um dos pilares da democracia, mas não pode ser usada de forma direcionada a matar a própria democracia. Nenhuma liberdade é absoluta, porque existe o limite da lei. Ninguém pode, em nome da liberdade, matar, roubar ou ofender pessoas ou instituições.

 

CS/AJN1 – O livro analisa a influência da globalização nesses fenômenos. Como essas forças globais impactam a cultura política local e o comportamento do eleitor e das instituições aqui em Aracaju?

Anselmo Oliveira  – Como já disse, a comunicação global eliminou as fronteiras e, com o fenômeno da internet e das redes sociais, esses movimentos globais atuam em todos os lugares. Assim, Aracaju e todas as demais cidades são impactadas pela cultura da desinformação e da propaganda baseada na mentira e na construção de narrativas. Naturalmente, a cultura política e o comportamento do eleitor estão sujeitos a essa contaminação. Acredito que instituições como o Ministério Público, o Judiciário e a imprensa responsável devem atuar para trazer a informação verdadeira e responsabilizar quem usar a desinformação e a mentira.

 

CS/AJN1 – Em sua análise, qual o peso da desinformação e da polarização digital na estabilidade democrática local, considerando a força que esses movimentos ganharam nas últimas eleições na nossa região?

Anselmo Oliveira  – O fenômeno da polarização digital e o uso da desinformação vêm sendo sentidos em todos os lugares, desde os conflitos do Oriente Médio, por exemplo, até as questões da política paroquial. E as eleições são especialmente propícias ao mau uso das ferramentas digitais. Por isso, é preciso o cuidado da Justiça Eleitoral em punir os excessos, para evitar o comprometimento da vontade do eleitor.

 

CS/AJN1 – Além de diagnosticar os problemas, o senhor faz uma análise comparativa profunda entre os sistemas presidencialistas e parlamentaristas. Diante dos estudos de caso que o senhor analisou no livro, qual desses sistemas tem se mostrado mais resiliente para absorver e superar as crises institucionais modernas?

Anselmo Oliveira  – Essa é uma questão importante. No sistema parlamentarista, é preciso que a sociedade entenda que eleger um parlamentar é tarefa séria, pois o parlamento terá uma força muito grande na condução do governo do país. É um sistema que preserva o Estado de graves crises políticas — a exemplo da Inglaterra, que, nos últimos dez anos, já teve sete primeiros-ministros e diversas formações no seu Parlamento. O sistema presidencialista, por sua vez, concentra muito poder no Executivo e, dependendo de quem o ocupe e das condições políticas do momento, pode levar ao autoritarismo e ao enfraquecimento dos demais poderes do Estado. Hoje, penso que é necessário refletir sobre novas possibilidades de administração do Estado, considerando as experiências dos dois sistemas.

 

CS/AJN1 – O senhor aponta que o diálogo social e a participação ativa da sociedade civil são os verdadeiros pilares de sustentação da democracia. Trazendo essa tese para a nossa realidade, de que forma as lideranças comunitárias, as universidades e os cidadãos de Aracaju podem se organizar de maneira prática para exercer esse papel de defesa institucional?

Anselmo Oliveira  – A própria Constituição brasileira de 1988 trouxe mecanismos de participação popular nos âmbitos da saúde, da educação, da comunicação, entre outros. O que assistimos, nos últimos anos, foi ao desmantelamento da participação da população por meio dos Conselhos Municipais, Estaduais e Nacionais, refletindo exatamente uma das ações típicas para eliminar a democracia. A participação popular é uma das formas que podem garantir que a democracia não morra.

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quinta-feira, 23 de julho de 2026

O Impacto das Novas Regras das Redes Sociais

 

Como o combate à desinformação médica e a proteção do bem-estar mental de crianças e adolescentes transformaram a regulação digital em uma prioridade para o setor da saúde.

 

A relação entre o universo digital e a saúde coletiva passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Se no início as redes sociais eram vistas apenas como canais de entretenimento e comunicação pessoal, hoje elas desempenham um papel central na disseminação de informações médicas, na formação de hábitos e na saúde mental de bilhões de pessoas. Diante do aumento alarmante de fake news sobre tratamentos e vacinas, além do crescimento dos índices de ansiedade entre jovens, governos e órgãos de saúde passaram a tratar a regulação das plataformas digitais não apenas como uma questão de tecnologia, mas como uma política pública de saúde urgente.

Nesse cenário, novas diretrizes e leis que responsabilizam as Big Techs estão redefinindo como conteúdos sobre saúde podem ser compartilhados e como os algoritmos devem atuar para proteger os usuários.

A circulação de receitas milagrosas, diagnósticos equivocados e teorias conspiratórias contra intervenções médicas comprovadas representou um divisor de águas. Durante crises sanitárias, ficou claro que a desinformação pode matar tão rápido quanto uma infecção. Diante disso, as políticas públicas de saúde integraram o combate às fake news no coração de suas estratégias de prevenção.

As novas regras impostas às redes sociais exigem que as empresas adotem mecanismos mais rigorosos de verificação. Entre as principais medidas adotadas pelas plataformas e incentivadas pelas autoridades de saúde, destacam-se:

Rotulagem de conteúdos sensíveis: Publicações que abordam tópicos como vacinação, epidemias e tratamentos de doenças graves agora recebem avisos automáticos direcionando o leitor para fontes oficiais, como o Ministério da Saúde ou a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Remoção de contas e conteúdos nocivos: Canais e perfis que promovem a venda ilícita de medicamentos restritos, estimulam a automedicação ou incentivam a interrupção de tratamentos médicos consolidados passam a sofrer punições diretas, como a suspensão ou o banimento.

Valorização de especialistas: Algoritmos foram reconfigurados para dar maior alcance e visibilidade a conteúdos produzidos por profissionais de saúde credenciados, conselhos de medicina e instituições científicas reconhecidas.

O objetivo dessas ações não é restringir o debate livre, mas garantir que o cidadão tenha acesso a informações claras, precisas e baseadas em evidências científicas antes de tomar decisões que impactem sua integridade física.

Outra frente crítica na interseção entre regulação digital e saúde pública diz respeito ao impacto psicológico do uso excessivo das redes sociais. Estudos científicos correlacionam o tempo prolongado em plataformas de vídeos curtos e fotos ao aumento de quadros de depressão, distúrbios de imagem corporal, insônia e ansiedade em crianças e adolescentes.

Embora haja consenso sobre a necessidade de proteger a população, a implementação dessas diretrizes enfrenta debates complexos. De um lado, defensores da saúde pública argumentam que o interesse coletivo e a preservação de vidas devem se sobrepor ao lucro das empresas de tecnologia. De outro, especialistas em direitos digitais alertam para os riscos de censura prévia, perda de privacidade e vigilância excessiva.

O grande desafio dos governos é construir normas que responsabilizem as plataformas sem violar os direitos fundamentais dos cidadãos. Para isso, o diálogo entre ministérios da saúde, órgãos reguladores de telecomunicações e a sociedade civil tem se mostrado fundamental. O consenso atual é de que as redes sociais não podem atuar como territórios sem lei quando o assunto é o bem-estar e a segurança da população.

As leis e as ferramentas tecnológicas de moderação são indispensáveis, mas não são suficientes por si sós. A consolidação dessas políticas públicas depende diretamente do letramento digital e da educação em saúde. Capacitar o cidadão para que ele saiba identificar uma notícia falsa, questionar promessas fáceis e buscar ajuda em fontes confiáveis é uma das formas mais eficazes de prevenção.

À medida que o ambiente virtual se torna cada vez mais integrado à rotina das pessoas, a integração entre saúde e tecnologia deixa de ser uma escolha e passa a ser uma norma estrutural. A convergência entre regras claras para as redes sociais e políticas de saúde bem fundamentadas é o caminho mais seguro para garantir que a inovação continue a servir à vida, e não o contrário.

https://ajn1.com.br/colunistas/jose-anselmo-de-oliveira/o-impacto-das-novas-regras-das-redes-sociais/

sábado, 18 de julho de 2026

STF e STJ Impõem Limites à Judicialização

A judicialização da saúde no Brasil passa por uma guinada histórica. Decisões e iniciativas recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) redesenharam as regras para o fornecimento de medicamentos e tratamentos. O objetivo central é conter a explosão de processos e garantir a sustentabilidade financeira do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Saúde Suplementar. O recado das cortes é claro: o direito à saúde não é absoluto e exige responsabilidade econômica.

O lançamento da cartilha oficial do STF para o fornecimento de remédios pelo SUS consolida os critérios da repercussão geral. O documento unifica a atuação de juízes e gestores, atacando o caos processual que antes asfixiava municípios e estados.

A partir de agora, as regras de competência são rígidas. Processos sobre medicamentos sem registro na Anvisa ou de altíssimo custo e sem incorporação no SUS devem tramitar na Justiça Federal, direcionando o gasto à União. Para barrar pedidos sem fundamentação, o STF reforçou o papel do JudSaúde e das notas técnicas do NatJus. O relatório médico particular perdeu o caráter de ordem inquestionável; as concessões agora exigem medicina baseada em evidências.

Simultaneamente, o STJ fixou uma barreira importante contra o custeio de procedimentos no exterior. O tribunal consolidou o entendimento de que o Estado e as operadoras privadas só podem ser obrigados a pagar por intervenções fora do país em condições ultraexcepcionais.

Para haver a concessão, é preciso provar a inexistência total de alternativa eficaz em solo nacional. O STJ determinou que o direito à saúde não garante acesso automático à tecnologia mais cara do mundo se o protocolo oferecido no Brasil for seguro.

Essa mudança de postura ataca diretamente a crise de sustentabilidade do mercado de saúde suplementar, estruturando-se em três reflexos financeiros imediatos:

  • Previsibilidade Atuarial: O cálculo das mensalidades baseia-se no mutualismo e na previsão de risco. Liminares que obrigavam o custeio de terapias experimentais quebravam esse cálculo, gerando rombos bilionários imprevistos. O veto a tecnologias estrangeiras sem respaldo protege o caixa das operadoras contra gastos imprevisíveis.
  • Alívio no Bolso do Consumidor: Na saúde suplementar, os custos da judicialização geram um efeito cascata. Eles são rateados entre todos os beneficiários nos reajustes anuais da ANS. Ao conter decisões individuais de alto custo, freia-se a pressão inflacionária sobre as mensalidades, o que evita a evasão de clientes que não conseguem mais pagar pelo serviço.
  • Segurança Jurídica e Investimentos: O ambiente de incertezas afastava investidores. Regras de transição claras e critérios técnicos rígidos tornam o mercado brasileiro atraente para fundos de investimento. Além disso, com o caixa protegido contra excessos judiciais, as operadoras ganham fôlego para investir em medicina preventiva e atenção primária.

 

As novas diretrizes do STF e do STJ marcam a transição para um modelo guiado pela racionalidade econômica e científica. Ao impor limites à judicialização, o Judiciário não nega o direito à vida, mas protege a sobrevivência financeira de todo o sistema de saúde do país.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

 Home O Clima Adoece o Mundo

O Clima Adoece o Mundo

02/07/2026 às 06:20

 

A febre da Terra está, literalmente, contaminando a humanidade. O que antes era tratado em conferências internacionais como um alerta ecológico para as próximas décadas, hoje já lota hospitais, sobrecarrega postos de atendimento e ameaça desencadear novas e devastadoras crises sanitárias globais. As catástrofes climáticas — traduzidas em secas severas, ondas de calor letais e inundações históricas — deixaram de ser apenas desastres ambientais e estruturais. Elas são, hoje, o maior risco à saúde pública em todo o planeta.

Neste cenário de extremos, o aquecimento anormal dos oceanos provocado por fenômenos como o El Niño altera de forma drástica os padrões de chuva e temperatura no globo. Essa disfunção meteorológica serve como um verdadeiro catalisador para surtos epidemiológicos, criando as condições perfeitas para que doenças antigas retornem com força e novos patógenos encontrem caminhos para infectar populações.

O mapa global de distribuição de doenças infecciosas está sendo reescrito pelo clima. Pesquisadores do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz vêm alertando sistematicamente que não é mais possível separar as análises meteorológicas do monitoramento de endemias.

Christovam Barcellos, pesquisador titular da Fiocruz e um dos coordenadores do Observatório, frequentemente destaca em suas análises o impacto direto do aquecimento no comportamento dos vetores. Segundo o pesquisador, o clima atua como um amplificador de riscos: com o aumento da temperatura média, mosquitos como o *Aedes aegypti* (transmissor da dengue, zika e chikungunya) conseguem sobreviver, se reproduzir mais rápido e alcançar altitudes e latitudes onde antes o frio funcionava como uma barreira natural. O calor extremo acelera o metabolismo do inseto, encurtando o tempo que o vírus leva para se desenvolver dentro dele, o que antecipa e agrava os surtos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça essa realidade, apontando que áreas na Europa e na América do Norte, antes consideradas temperadas, já registram casos autóctones de doenças tropicais em decorrência de ondas de calor prolongado.

No Brasil, um país de dimensões continentais, o choque climático encontra um terreno perigoso devido às profundas desigualdades estruturais. Os extremos climáticos dividem o território nacional em cenários sanitários distintos, mas igualmente alarmantes.

No Sul e em partes do Sudeste, o excesso atípico de chuvas provoca enchentes que devastam cidades inteiras. O recuo das águas não deixa apenas lama e destruição material; deixa um rastro biológico letal. O contato prolongado com a água contaminada resulta em picos de leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas agudas. A força das águas destrói a infraestrutura de saneamento básico e as próprias unidades de saúde, desamparando a população no momento de maior vulnerabilidade.

Do outro lado do mapa, o Norte e o Centro-Oeste enfrentam secas implacáveis e a redução drástica no volume dos rios. Na Amazônia e no Pantanal, a estiagem severa potencializa grandes incêndios florestais. O impacto imediato dessa devastação é sentido nos pulmões da população: a fumaça tóxica que encobre as cidades resulta em uma explosão de internações por síndromes respiratórias agudas, agravamento de asma e doenças cardiovasculares, sufocando as alas pediátricas e geriátricas do sistema público.

Além dos impactos diretos do calor e das chuvas, há uma ameaça invisível e de enorme proporção: o risco de novas pandemias. O desmatamento, impulsionado pelas secas e pela expansão irregular, força o contato entre animais silvestres e áreas urbanas.

Para enfrentar essa realidade, o Ministério da Saúde do Brasil e a comunidade científica têm adotado enfaticamente o conceito de Saúde Única (One Health). Essa abordagem reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas são interdependentes. Em documentos e boletins oficiais da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), o Ministério da Saúde ressalta que a crise climática exige que o Sistema Único de Saúde (SUS) se prepare para lidar com emergências de múltiplas frentes, desde o estresse térmico até a emergência de novos vírus. A degradação ambiental aumenta a probabilidade do “spillover” — o salto de um patógeno de uma espécie animal para os humanos.

A resposta a esse cenário exige políticas públicas robustas. O modelo reativo — de enviar socorro, médicos e remédios apenas quando a tragédia já se instalou — provou ser insuficiente. É inadiável construir resiliência climática dentro do sistema de saúde.

Sistemas de Alerta Precoce: O cruzamento de dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) com a vigilância epidemiológica permite prever surtos com semanas de antecedência.

Adaptação Hospitalar: Unidades de saúde precisam ser construídas em áreas seguras, com autonomia energética e hídrica para não colapsarem durante apagões ou enchentes.

Saneamento Básico: Um investimento histórico é necessário para reduzir a vulnerabilidade da população às doenças de veiculação hídrica.

A transição ecológica precisa ser encarada, fundamentalmente, como uma transição de saúde pública. Defender a estabilidade do clima é, na prática, evitar o colapso dos hospitais e a próxima grande crise sanitária. O tempo da prevenção já passou; agora, vivemos o tempo da urgência.